A décima edição do ENGIE Day abordou neste ano “Os desafios da transição energética para o setor de energia brasileiro”. Realizado no auditório do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em 23 de junho, o evento foi dividido em três painéis: Ambiente de negócios; Visão da cadeia produtiva do setor de energia; e Agenda ESG. De acordo com o diretor de Comunicação, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da ENGIE, Gil Maranhão, o objetivo do encontro foi atualizar todos os stakeholders sobre os temas estratégicos para a empresa e o mercado de energia.
“Ao longo de quase 30 anos no Brasil, nós passamos por todos os períodos de revolução, evolução e involução do setor elétrico. E posso dizer que a ENGIE Brasil, ao se tornar a grande empresa que é hoje, foi, talvez, a que mais tenha financiado e licenciado projetos, gerando e comercializando energia e contribuindo para um cenário regulatório para que ela mesma pudesse investir em um ambiente seguro”, disse. “Globalmente, temos a meta de nos tornar carbono zero até 2045, ampliando nossa capacidade instalada para 95 GW de energia renovável e prestando mais de 90% dos nossos serviços a partir de fontes limpas”, completou
Nesse contexto, a operação da ENGIE no Brasil já está adiante. “Na verdade, o Brasil, quando olhamos para o cenário global, é um país que já fez a transição energética, suprindo, hoje, cerca de 85% da sua necessidade energética a partir de fontes renováveis. E a ENGIE, seguindo sempre com sua correção e honestidade intelectual, buscando um setor elétrico cada vez mais sustentável, e respeitando seus stakeholders”, argumentou o Country Manager da ENGIE Brasil e diretor-presidente da ENGIE Brasil Energia, Eduardo Sattamini.
Ambiente de negócios
Para o primeiro painel, foram convidados ao palco a diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (CERI/FGV), Joísa Dutra, e o professor de Recursos Hídricos da COPPE/UFRJ, Jerson Kelman, ambos ex-diretores da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Para mediar o debate, o managing director Power Networks da ENGIE Brasil, Gustavo Labanca, lembrou do trilema da energia: sustentabilidade ambiental; segurança no suprimento; e modicidade tarifária. Entre os temas que mediou, Labanca questionou sobre “o que fazer para garantir o fornecimento de energia elétrica 24/7, 365 dias por ano?”.
Joísa Dutra respondeu que é preciso ser “agnóstico” em relação às tecnologias que vão levar a esse fornecimento ininterrupto, não bastando pensar simplesmente em investimento isolado: “é necessário que pensemos sobre como integrar todas as fontes renováveis disponíveis, envolvendo tanto as redes de armazenamento, que têm desafios muito importantes, quanto as questões de licenciamento ambiental”.
O Prof. Jerson Kelman, ao retomar a menção ao “trilema da energia”, apontou a necessidade do suporte de políticas públicas para evitar qualquer prejuízo nos lemas segurança e equidade energéticas para o alcance da sustentabilidade ambiental, de modo que o trilema possa ser plenamente garantido. “É continuar apoiando, claro, o investimento em geração renovável, mas sem recorrer a discursos falaciosos ou alarmistas, mesmo porque o problema principal de emissão de gases de efeito estufa no Brasil, por exemplo, não reside no setor energético em geral, muito menos no setor elétrico, que emitem, respectivamente menos de 20% e 3%”.
Visão da cadeia produtiva do setor de energia
Após o primeiro painel tratar de oportunidades e desafios da transição energética, por meio, inclusive, do aumento da participação de energia renovável em nossa matriz, foi chegado o momento de investigar a visão do mercado financeiro sobre os processos de transição energética e como tem se comportando o segmento de data centers, um dos que mais crescem em demanda energética.
Sócio do banco de investimentos BTG Pactual, Vittorio Perona reconheceu que o Brasil tem a matriz energética mais limpa do mundo, mas que “precisa promover a combinação das qualidades de seus recursos naturais com uma redução do custo de capital, no sentido de implementar medidas que facilitem o investimento, por exemplo, em data centers”.
Fabio Yanaguita, diretor de Energia LATAM da Scala Data Centers, empresa cliente da ENGIE desde 2020, contextualizou o emprego de seu produto e o quanto ele depende do fornecimento ininterrupto de energia. “Todo mundo acha que o data center é uma empresa de tecnologia, mas não é. Nós somos infraestrutura, nós somos como um aeroporto, uma estrada. Nós viabilizamos a economia. E exatamente por essa nossa natureza, precisamos de muita segurança energética. Imagine um banco de dados, que alimenta todo um hospital ou um aplicativo de bate-papo, inoperante?”, exemplificou.
O moderador do debate, Gabriel Mann, diretor de Estratégia e Regulação da ENGIE Brasil Energia, completou que as “Big Techs”, grandes empresas de tecnologia e inovação dominantes no mercado, são as clientes em potencial dos data centers, que precisam estar também muito afinados aos marcos regulatórios do setor, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Agenda ESG
No terceiro e último painel do ENGIE Day, a gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da ENGIE Brasil, Flávia Teixeira, propôs aos convidados endereçarem a perspectiva de ESG de todas as questões que foram faladas no evento, como gestão da eficiência energética, garantia jurídica dos negócios e segurança para os investidores.
“Eu acredito que ESG é muito mais do que ter um selo verde para conseguir financiamento facilitado. Hoje, a questão está muito mais atrelada à gestão de risco. Em Davos, no ano passado, de 20 instituições financeiras, 12 eram seguradoras. Agora, o último relatório do Norsys Bank elevou a faixa de comprometimento dos portfólios associados a riscos climáticos da faixa de 3% a 4% para a faixa de 17% a 28%”, disse.
Como moderadora, Flávia perguntou à convidada Carla Primavera, superintendente de Transição Energética e Clima do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sobre quais são as principais ações do banco para aumentar seu protagonismo como indutor de políticas públicas?
Colocando o BNDES como o maior financiador de energia renovável do mundo, com carteira de ativos superior a R$ 200 bilhões, Carla respondeu que “vivemos hoje uma complexidade global de mercados muito grande. Então, endereçar o planejamento da transmissão e revisitar a regulação são atitudes urgentes no setor. Lembrando que uma das vocações do BNDES é pensar em possibilidades de solução de resiliência para os clientes e parceiros”.
Para o secretário adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, Rodolpho Bastos, é importante, primeiro, contextualizar o estado do Pará, que abriga as duas maiores usinas hidrelétricas estritamente nacionais e cuja maior emissão de carbono se dá pela agropecuária e pelo uso do solo e das florestas. “Por isso, desde 2019, temos focado em políticas e programas de mitigação das atividades associadas a essa emissão”, disse.
Com relação à ocupação, o Pará é o estado com maior número de assentamentos no país: calcula-se que há mais de mil, ainda com uma série de áreas sem identificação na base do IBGE. “Temos também um grande número de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação estaduais e federais. Só com essas características já podemos contribuir, e nos beneficiar, fortemente dos debates da COP30”, argumentou Bastos.
Inteligência Artificial vista com olhos naturais
Encerrando os debates, o palestrante convidado para essa edição do ENGIE Day foi o designer e professor da PUC-Rio, Fred Gelli. Cofundador e CEO da Tátil Design, consultoria de branding, design e inovação – e orador de temas como Ecoinovação, Biomimética, Sustentabilidade e Inteligência Artificial X Inteligência Natural, Fred fez a provocação da humanidade se voltar para as formas de adaptação e resiliência vistas na natureza, percebendo o quão econômicas, precisas e sem desperdícios elas são.
A ideia foi reforçar a valorização da vida, observando como seu ciclo se desfaz e refaz naturalmente, sob a forma mais sustentável possível. “Eu trouxe este título, ‘Inteligência natural inspirando futuros desejados’, porque eu acho que é exatamente o que a gente precisa começar a imaginar, no sentido de ‘futuros desejados’. Estamos já tão inundados de futuros distópicos no horizonte, que se torna imperativo começarmos a não imaginá-los, na tentativa de que, assim, eles dificilmente possam acontecer. Para isso, precisamos engajar as pessoas a mudar comportamentos, a partir da ideia de que a natureza pode ser uma fonte de inspiração para pensarmos soluções para os problemas mais distintos, em qualquer área do conhecimento humano”, concluiu Gelli.
texto por Sergio Brandão

